Papéis espalhados pelo quarto
Às vezes eu tento te contar,
mas quando olho pro seu rosto confuso,
sei que você nunca vai entender o que eu quis dizer.
Talvez você nunca saberá o que eu sinto.
Tentei demonstrar com um abraço,
mas a verdade é que eu estou me enganando.
Estou querendo alcançar algo maior que minha altura.
A sua sinceridade me inibe.
A sua beleza é enfim, encantadora.
As suas palavras me fazem sentir ignorante.
Seu lindo jeito de dizer que ama,
me faz sentir pequeno.
Estou tentando ser algo maior do que eu sou capaz.
Um monumento visível ao seu coração.
Me exibindo com asas falsas,
elas vão se quebrar.
Estou indo embora.
Todas as canções no piano que fiz,
foram pra você.
Ainda lembro dos papéis espalhados pelo quarto.
Ainda lembro de quando eramos desconhecidos.
Você passou pela praça com um livro na mão,
seu vestido e meia-arrastão.
Seu cabelo meio encaracolado,
meio intrigante.
Seu perfume que eu consegui sentir.
Seu batom vermelho, que fez me apaixonar.
E eu achei que seria incapaz,
mas hoje eu tenho certeza.
Caminhe pela praça,
intrigue os outros homens com seus cabelos,
e depois os faça enlouquecer.
Os faça se apaixonar,
e me faça, por favor, esquecer.
Eu vou continuar sozinho.
E se puder, não se esqueça de mim.
Alguém como você
Escutou uma voz que não lhe era estranha, deixou o metrô ir embora.
Subiu as escadas da estação, intrigada, era uma voz doce. Alguém que lhe desejava que dormisse bem.
Sentou no banco da estação e tentou curar seu nervosismo com um gole d’água. Quando pensou que estava bem, levantou-se.
Foi andando distraída por aquele terminal. Até que esbarrou com uma senhora e, ao levantar o rosto para desculpar-se, percebeu algo semelhante.
Suas pernas tremiam e mesmo assim, saiu correndo em meio a multidão.
Entrou no banheiro e lavou o rosto com água.
Seu coração batia acelerado e tudo o que sentia era um aperto, uma saudade. Não sabia explicar o que havia acontecido, quando uma moça ofereceu apoio, uma lágrima desceu dos seus olhos.
Encostou a cabeça no colo da desconhecida e disse o nome de sua mãe por uns instantes.
Aquela senhora era idêntica à ela.
Não sabia o que aquilo significava e nem ao menos se sua mãe tinha algo a lhe dizer. Mas sua mensagem de proteção, a lhe fez sentir confortada.
Foi andando confusa e com um olhar distante pela rua, pegou um táxi e aqueles momentos olhando as pessoas da rua pelo vidro do banco de trás, a fez querer sua mãe de volta.
Entrou no cemitério, foi ao túmulo de sua mãe. Fez uma oração. Derramou uma lágrima por cima da grama.
Sentia falta de ser ninada por ela, e queria escutar o seu tranquilo ”durma bem” todas as noites.
Feliz, disse pra sua mãe: -”Não se esqueça de mim”
Seguiu leve pela rua, pelo táxi, pela estação, pela vida. Aquele pra ela, foi um sinal de felicidade.
Por que tudo é vida, o fim é apenas uma questão de acreditar que um dia o amor termina.
Vi o tempo passar, vi coisas mudarem de lugar.
Vi as cores cada vez mais ficando escuras.
Mas nunca esqueci da letra daquele Rock n’ Roll que tocou no bar onde nos conhecemos.
Seu rosto encostado em meu colo, a taça suja do seu batom-vinho.
A conversa no pé da orelha, e eu tentando te fazer esquecer da timidez.
As coisas em comum e todos os anos, que sei que passamos juntos.
Os sobrenomes parecidos, a simpatia que criei pela tiara que prendia seu cabelo.
O amor que eu sinto quando lembro da sua essência.
É algo como aquilo que estava bebendo, mas acho que estou enganado.
Seu colo tem um cheiro puro, algo como o céu.
E é lá que, pra mim, talvez você possa estar.
Em um momento, enquanto me contava de sua viagem, você disse que faria uma música pra mim e que aquela noite nunca iria acabar.
Mas amanheceu, e você nem ao menos disse pra onde iria.
Talvez eu preferiria morrer, do que nunca mais poder te beijar de novo.
E tem sido assim, perdido nessa estrada atrás de você.
Alguns dizem que é loucura,
eu digo que é saudade.
Mas eu sei que é amor.
Eu só quero sentir de novo seu cheiro de whisky.
As cordas do violão sempre disserem o que ela não podia e talvez, ao menos queria dizer.
Eu não sei nada dela, não sei bem onde mora, não sei o que pensa, não sei se aquele nome é artístico, só sei que ela diz que o amor é um ”jogo perdido” naquela canção.
Só sei que se perdeu em uma cidade distante.
Não sei o tamanho do seu coração, não sei a intensidade da sua piedade.
Ela me maltrata, a cada vez que lembro que não posso encostá-la em minha camisa. Pôr em meu ombro e perguntar à ela o que tem a dizer.
Sua timidez tem me deixado curioso e sua música, me fez te querer perto.
Me abrace e confie em mim.
Acho que estou apaixonado. Ou talvez seja admiração, estou confuso. Mas eu sei que é tão óbvio quanto a certeza que eu vou te encontrar.
Eu não vou medir toda a distância que há entre nós.
Meus pés sangram, e meu coração cada vez mais dói.
Eu não podia ter sentido seu cheiro de whisky.
Eu vou continuar à caminhar.
Falsa Tristeza Não conseguia chorar, mas foi com destreza que colocou uma lágrima em seu rosto. Olhou para a parede limpa e a sujou de tinta preta. As cores do seu chapéu, fez questão de esconder no cabide atrás da porta. Acendeu um charuto, fez uma oração. Se esforçou pra chorar. Choro sem mágoa, sem nada. Tentou lembrar de cada tristeza morta, cada fratura exposta. Fez drama, pôs uma música lenta ao fundo para continuar tentar a chorar. As lágrimas não desciam. Desconfortada com a falta de melancolia, entrou em tédio. A velha preguiça de felicidade, o costume por limitações. A parceria com a depressão. A confortável troca da busca pelo recomeço por continuar deitada em sua cama, vendo os dias passarem. A fresta esquecida da janela, fez refletir luz no lençol da cama e na parede suja. Imatura. O calor que poderia aquecer teu coração e ser sinal de vida, mas não. Rendeu à ela, o título de fingida.
As lágrimas já não mais desciam.